Dúvida,

(Distante - Willian Turner)


....não houve pior do que aquela que obriga a buscar coragem, coragem!, onde não havia, aquela que fez doer a cabeça e o peito, que precisa de embriaguez para conseguir atravessar a via.. Tanto empenho, tanta coragem, mas tanto tanto que é quase uma possessão... 
           Qualquer mané dizendo que se deve tentar para dizer que tentou, qualquer mensagem de vida-perfeita e/ou de valores-das-coisas-pequenas da Ana Maria Braga de manhã, qualquer livro de R$ 14,90 que tenha a capa num tom pastel rosado do catálogo do mês passado,   qualquer pinga da cachaçaria de sempre, qualquer passagem lhe serve como sinal divino, empurrãozinho do seu deus, orixá, santo ou anjo, força cósmica ou simplesmente acaso, chame do que quiser.
          Feito todo o processo do encorajamento, faz-se o questionamento. Seja qual for a situação, na vida espiritual, profissional, extra-conjugal, parcialmente virtual, afeto-sexual, sócio-econômica, cômica, lacônica, biônica, parada, movimentada, comprada, adequada, metropolitana, cigana, com ou sem losartana e/ou amigos, seja qual for, imagina-se todas as possibilidades de resposta, calcula-se que a probabilidade do sim sempre será maior que a do não, mas atesta-se que o não existe de qualquer forma. 
           Qualquer resposta, mudando a vida ou não, arrasando com tudo ou não, lhe tornando rico ou não, será aceita. Menos uma. 
           Se a resposta for o silêncio, ai do coração... Quando a resposta é o breve e dolorido silêncio, não há chão, nem muro, nem teto, nem parede, nem voz que consiga gritar o suficiente, nem infarto que aperte dessa maneira, enfim...
            Silêncio tortura porque
            poderia ter sido sim,
            poderia ter sido não
            poderia ter sido não, mas gostaria
            sim, mas não deveria
            sim, mas não poderia
            não, porque não queria
            não, porque não queria algo que não teria depois
            sim, mas sem ninguém saber
            sim, mas com todos sabendo
            não, mas na próxima será admitido
            não, a empresa não permite
            simplesmente não
            simplesmente sim...

        Mas o silêncio... Este, não se sabe.

                     Suspiro

(                                                                                                                                                              )

Brasília Ilhada



eu que não sou de calor e balada
apareço no litoral fora da temporada
e caio no mar do sul da terra ensolarada

não sei que horas são
e nem que dia é
nem para que lado fica o norte

não sei de onde eles estão
nem até onde dá pé
nem sei se aguento corrente de retorno forte

só sei dos quais quero
e dos quais estou

esse lugar, essa ilha, me deu muito para trazer
tantas cores no trapiche e no céu
música daquelas que empolgam os olhos
cheiro de maresia misturado com bosque
violão comunitário e gente boa gente
um sorriso de garçom, um tié vermelho pertinho
um suspiro para o mar que vem me tocar

e eu,
eu tirei um dos meus brincos
e deixei para o mar enterrar onde quiser
para um dia eu ter que voltar
para procurar.

Síntese do Meu Nariz

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(Brian M Viveros)

...e aí pintei as unhas dos pés de vermelho,
antes que o politicamente chato me proíba,
e também fiz extravagância,
comprei mais uma fragrância
comprei cigarrilha, comprei cohiba....

...foi então que perguntei para o abismo,
sobre o meu destino até o mês que vem e
ele só me deu eco, engoliu meu ego,
que egoísmo....

Eco, um ecocardiograma pode mostrar infartos
que podemos ter sem sentir.
Até então eu não sabia que era possível
infartar sem sentir.

...na verdade eu sempre soube.
Sou dona do nariz e dos ventrículos e das artérias.

... e agora, enquanto chove forte,
imagino olhos claros da moça nordestina,
canto mais uma vez acrobatic blood, concertina
reclamo do meu medo de raios
reclamo do esquecimento de Ohio
o trovão me assusta de novo....

Ah. Queria ser como Geni.
ser como elas que estão ali
...a vida parece correr mais fácil.

queria ser como Geni
para correr mais fácil para mim
porque as pedras e noites afora
eu já tenho mesmo...

e aí, acetona nas unhas, e pego o isqueiro,
sei que caio numa tentação ou noutra,
e sei que caio depois no meu travesseiro

sei que minha cabeça alcoolica
fica um pouco paranoica
mas logo em seguida, passa,
e aí o zepelim passa
e o infarto passa
e passo esmalte

e o isqueiro sempre some
e o abismo sempre engole
o que dizemos e depois cospe

e aí sobra o eco

Virada

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houve bebidas amarelas e azuis, 
ouve som, e houve luz
houve boa véspera, lembre
ouve, música de sempre
houve amigos aqui e lá
ouve fogos de artifício lá
houve abraço e desejo ter abraçado
houve lembranças do passado
houve sintonia entre irmãos de alma
entre pessoas que se amam
pessoas que nos amam
houve meu quase choro
houve alegria e malboro
ouve, esse ano será melhor que o passado
mesmo tendo sido o passado muito bom
grãos de areia como nós
inofensivos e felizes com o que têm
merecem sempre um melhor que outro
ouve, essa música é sua
aquela é minha
a outra é nossa
e assim vai

o ano virou, sempre vira
sempre escorre, o tempo sempre corre
mais ainda assim
viraremos outros anos juntos 
mesmo separados.

Libertação Provocada



Essa semana que está pela metade me serve para comprovar
aquilo tudo que eu já previa,
aquele banho banho de água fria
concluindo a lista de motivos para me ausentar

aqui sempre joguei sem blefar
nunca fiz de conta que
nem disse que gostava de
afim de agradar

mas quem mais joga limpo é quem mais acaba se ferrando
é onde todos vão se descontando sem olhar para quem

ninguém pagou meu fumar
nem meu palavreado
nem minha tatuagem
nem meu beber
nem meu sair
ninguém pagou o meu divertir
nem meu lápis
nem meu caderno
e também ninguém
nunca leu
bebeu
fumou
saiu junto para saber

Sinto muito pela minha flor da idade interiorana
me desculpe a pseudo-revolta
isso não é um lamento
nem um desabafo

não vou fugir de casa
não vou encher a cara
nem querer me encontrar em brisas ilícitas
nem gritar
nem xingar
nem falar mesmo sabendo que vão achar que
esse meu aceitar o que disserem é somente dissimulação

é que acabaram meus argumentos
findaram-se os meus motivos
agora é só uma questão de oportunidade

umas questões e só
as pessoas, todas..
me libertam sem querer.

Âncora Leve

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Para quê esse batom vermelho sangue
combinado com perfume favorito,
para quê esse topete lindo
e esse vestido azul marinho
para quê pérolas no colar
e rímel com delineador no olhar
se o teu marinheiro navega
em mares desconhecidos nesse momento?

Empírica Interiorana

(Sciarpa Blu - Tamara de Lempicka )

Aos meus amigos que compartilham desses momentos, Ana Raquel e Deni.


Cá estou no balcão mais uma vez
o de sempre, um maço daquele lá e o nº8

é uma mistura de crise de existência
com vodka e mania de empirismo
drink nº8, estabilizador de consciência

preciso de uma dose
I need a fix cause I'm going down... 
bebo feito água, sempre
sempre sirvo dois,
um para mim e
outro para o eu
um para aguçar
outro para distrair

enquanto isso, executo uma fuga,
esboço sorrisos e dúvidas
e termino tudo em fermata
em oito, lemniscata

consumam-se meus argumentos
para essa ausência de arrependimento.

Climática Atemporal Platônica


(Chuva, Vapor e Velocidade - William Turner) 

Chova bem aqui
bem nesse horário
altere o seu itinerário
pára de chover em Havana
chova junto em qualquer cabana
chova aqui na minha cama
chova aqui no interior
chova aqui nesse bairro
que tem o melhor céu da cidade
mas molha tudo
colchão desnudo
chova e dissolva
sê solvente
sol quente
leve a leve bigorna
garoa morna
a esguia na esquina
brisa fria
granizo
gris